MODELO EXPERIMENTAL PARA ESTUDO DA CIRCULAÇÃO RETRÓGRADA

Eixo Principal:
DOENÇA ARTERIAL PERIFÉRICA GRAVE

Texto (resumo):
INTRODUÇÃO
A arterialização venosa tem sido adotada como estratégia para salvamento de membros em isquemia crítica sem leito arterial distal. Os bons resultados são todos baseados em evidências. No entanto, embora a literatura recente (Referências: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12) mostre um grande número de publicações, a técnica não tem ganho grande aceitação e os mecanismos pelos quais a irrigação da extremidade acontece ainda são desconhecidos.

OBJETIVOS
Desenvolver um modelo experimental capaz de testar hipóteses que poderiam esclarecer os mecanismos da nutrição tecidual em extremidade isquêmica submetida à arterialização venosa. Assim, apresentar a técnica e os resultados obtidos com as seguintes hipóteses: 1- Melhora da saturação de CO2, avaliada pela gasometria sequencial, em extremidade submetida à isquemia e posteriormente à arterialização venosa; 2- Aumento da pressão arterial na extremidade isquêmica submetida ao procedimento; 3- Presença em capilar arterial de corante Tinta da China interposto na rede venosa através da arterialização.

MÉTODO
O experimento se realizou no laboratório de Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da UEPG. Foram utilizados onze suínos, machos e fêmeas, com peso médio de 20kg, cruzados Large White – Landrace. Os animais foram submetidos à medicação pré-anestésica, composta por acepromazina (0,4mg/kg), Xilazina (0,2 mg/kg) e Ketamina (14 mg/kg), e indução anestésica com Propofol (5 mg/kg ). Após a indução os animais foram entubados e mantidos em anestesia inalatória em modo de respiração mecânica com oxigênio na concentração de 10 ml/kg em isofluorano. Efetuou-se preparo adequado de membro posterior para dissecção da veia safena externa (parva), que após anticoagulação sistêmica (5000 UI heparina endovenosa) teve suas válvulas rompidas com a utilização do valvulótomo de Lengua. A veia foi ligada e canalizada distalmente com sonda nº4. Seguiu-se a dissecção e secção da artéria femoral comum com início do tempo de isquemia. Canalização das extremidades proximal e distal com sonda nº6. Após aproximadamente 30 minutos de isquemia realizou-se a coleta da gasometria na extremidade distal da artéria femoral. Em seguida a primeira medida de pressão em coluna de água, nas extremidades arteriais canalizadas. Estabeleceu-se através da conexão da extremidade proximal da artéria femoral com a veia safena externa a arterialização venosa, iniciando o período de reperfusão por tempo semelhante 30 minutos. Realizou-se nova gasometria arterial distal e medida de pressões nas extremidades arteriais. Interposição de conduto com 10 ml de Tinta da China entre as extremidades arterial proximal e venosa distal em 5 animais e 1ml em 6 animais. Após o tempo estabelecido próximo a 30 minutos os animais foram submetidos à eutanásia e procedeu-se a amputação da extremidade para análise histológica.
As pressões parciais de CO2 pós-isquemia foram comparados com as medidas pós-arterialização.
A razão entre as pressões arterial distal e proximal pós-isquemia, foram comparadas com a razão entre as obtidas após a arterialização.
As extremidades posteriores amputadas foram acondicionadas em formol 10%. Conduzidas ao laboratório para confecção de lâminas, que coradas em HE, foram encaminhadas para análise histológica.

RESULTADOS
Sete de 11 (63,6%) animais mostraram diminuição da PCO2 nas gasometrias pós-arterialização quando comparadas com a realizada pós-isquemia.
Oito de 11 (72,7%) animais mostraram aumento da razão entre as pressões pós arterialização quando comparadas à razão entre as pressões pós-isquemia.
Em seis de 11 extremidades (55%) encontrou-se corante intravascular em capilares arteriais e venosos. Quatro de 5 (80%) submetidas a interposição de 10 ml de tinta e em duas de 6 (33,3%) submetidas a interposição de 1 ml. Não foram detectadas áreas com lesão tecidual isquêmica.

CONCLUSÃO
O modelo experimental UEPG 2014/1 reproduziu situações de isquemia e reperfusão por arterialização venosa se mostrando capaz de testar as hipóteses formuladas.
A arterialização venosa promoveu uma diminuição nas PCO2 determinadas pós-isquemia.
Ocorreu um aumento na razão das pressões pós-arterialização quando comparada às pressões pós-isquemia.
A presença de corante Tinta da China em capilar arterial demonstra que a arterialização venosa da extremidade promove a passagem retrógrada do fluxo do capilar venoso com maior pressão (arterial proximal) para o capilar arterial de menor pressão (artéria distal).

COMENTÁRIOS
Outros experimentos com maior tempo de exposição à isquemia e a arterialização bem como o teste de outras hipóteses e variáveis deverão ser realizados para validar tanto o modelo experimental quanto os resultados apresentados.
Detalhes técnicos como a valvulotomia distal utilizando material adequado e circulação venosa profunda permeável para compensar o hiperfluxo gerado pela fístula deve ser observado para que se possa obter resultados favoráveis com este procedimento que pode ser considerado a última oportunidade para salvamento de extremidades com isquemia crítica sem leito arterial distal.

BIBLIOGRAFIA
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Autores:
> Fernanda Aparecida de Oliveira Busato Nascimento – Nascimento, FAOB – UEPG
> Eduardo de Souza Tolentino – Tolentino, ES – UEPG
> Marcio Dias Guilherme Filho – Guilherme Filho, MD – UEPG
> Carlos Alberto Lima Utrabo – Utrabo,CAL – UEPG
> Cesar Roberto Busato – Busato, CR – UEPG
> Leandro Lipinski – Lipinski, L – UEPG
> Mario Rodrigues Montemor Netto – Montemor Netto,MR – UEPG